Sem o som de “Beethoven” – A emocionante carta de despedida de um jornalista ao seu cachorro

*Raimundo Borges

Às 9h30 desta terça-feira, faleceu em sua residência no Cohaserma, de falência múltipla dos órgãos, Beethoven, aos 23 anos. Ele não era um puro sangue, com pedigree e cotação na bolsa canina. Nem um cão inditoso por nunca ter participado de exposição, ou de concurso de beleza masculina. Era mistura de Fox Paulistinha e a raça mais brasileira de todas. Vira-lata, até pelo nome, é tão pejorativo para cachorro, quanto chamar gente simples de boia-fria. Beethoven nunca foi vira-lata. Era um cão de moral elevada e coragem extremada.

Beethoven nunca ostentou vida de granfino, nem tinha hábitos excêntricos, mas sabia escolher a melhor ração que chegava ao prato. Moral não lhe faltava para recusar a que não lhe agradava o paladar. Nunca precisou degustar chibé, como seus parentes do interior. Também não era infeliz por viver sozinho em casa. Muito pelo contrário, Beethoven era amado, paparicado e respeitado na rua, onde sabia “marcar território” e mantê-lo sob sua guarda. Ele sabia reconhecer seus pontos fortes e os fracos, na hora de enfrentar intrusos em sua esfera de domínio. Ensinava: recuar sempre e não se desmoralizar como perdedor.

Era um cão diferente. Nem de longe se aventurou como o Beethoven do filme homônimo, que encontra Missy, a cadela São-bernardo dos seus sonhos. Eles têm bebês, mas logo se separam. A dona de Missy, separa o casal de cães, pois quer forçar seu ex-marido a pagar 50 mil dólares para devolvê-la. Mas Beethoven e a família Newton fazem de tudo para libertar Missy da malvada e ambiciosa vilã Regina, dona da cachorra.

O Beethoven paulistinha não era aventureiro. Era dominador do espaço que ganhou em casa ao ser adotado, recém-nascido, por Juliana, minha caçula, ainda criança de oito anos, hoje às voltas com sua duplinha de gêmeos: Théo e Júlia, de três meses. Foi Juliana quem fez de Beethoven um membro da família. Foi ela quem o criou, paparicou e o fez envelhecer por mais de 20 anos, idoso para qualquer raça canina.

Mesmo sendo caninamente solitário, Beethoven não se deprimiu por não deixar uma renca de filhos. Era um animal ativo, atento, inteligente, carinhoso e respeitador dos estranhos. Nos últimos meses, deu sinais de fraqueza orgânica. Mesmo tendo vivido bem acima da expectativa dos cães, entre 12 e 14 anos, Beethoven foi um companheiro e tanto. Foi um cão fora da regra, como subespécie do lobo, ele fez por merecer o espaço que conquistou.

O cão talvez seja o mais antigo animal domesticado pelo ser humano. Teorias postulam que surgiu do lobo cinzento no continente asiático há mais de 100 000 anos. Beethoven nasceu na Maioba, portanto, não poderia ser de raça tão refinada. Aliás, nem deveria ser “Beethoven”- talvez um” Rex” ou “Dragão”. Mas acabou sendo nome de artista de filme de sucesso. Afinal, ele mereceu ter o nome de um gênio eterno da música clássica.

Amigo de todos os momentos. Era protetor do seu espaço e da casa que o acolheu. Hoje, o quintal está vazio. A goiabeira, que tantos frutos e sombra produziu, cedeu lugar à área de lazer e a churrasqueira. O mamoeiro também se perdeu no tempo e o coqueiro foi derrubado por ter virado pasto de lagartas. Mas a casa continua alegre, com a família Borges e os amigos que a escolheram para encontros casuais, de longos papos, movidos a galinhada, pirão de parida e bebericagem.

Juliana ganhou um casal gêmeo de lindos bebês, enquanto Beethoven se preparava para se despedir para sempre. Foi para a morada eterna, no Parque dos Animais. É a vida que segue. “Cães não precisam de carros luxuosos, casas grandes ou de roupas chiques. Água e alimentos já são o bastante. Um cachorro não liga se você é rico ou pobre. Esperto ou não. Inteligente ou burro. Dê o seu coração e ele dará o dele. De quantas pessoas podemos dizer o mesmo?”, do livro Marley 7 Eu.

*Raimundo Borges é jornalista de O Imparcial e editor do site raimundoborges.com.br

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