PRENDAM SEUS BODES… AS CABRITAS VÃO DENUNCIAR!

Jacqueline Heluy  – 

Seis mulheres, um espelho, secador e maquiagens. Claro que a leveza de um ambiente assim sempre faz fluírem assuntos interessantes e descontraídos. E boas gargalhadas também. Mas, neste dia, foi diferente.  Rolou papo sério.

O grupo começou comentando a notícia que pontuava na mídia, sobre ejaculações em pescoços femininos e bolinadores de mulheres dentro de ônibus.

Percebi certa tensão no ar e muito ressentimento nas palavras. “Os homens que fazem esse tipo de coisa deviam ser todos presos. São uns tarados, vermes nojentos”, disse a mais revoltada.

Foi então que resolvi lançar a pergunta, já sabendo exatamente qual seria a resposta.

– Quem aqui já foi bolinada dentro de ônibus quando adolescente? Não fiquem com vergonha, podem falar”, questionei.

No início, o silêncio. E logo começaram os relatos.

*Andreia, a mais revoltada, foi a primeira a responder. “Eu perdi foi as contas de quantas vezes fui abusada por homens quando eu voltava do colégio. Ônibus lotado, eles aproveitavam para se encostar e tentar passar a mão em mim. Comecei a enfrentar esse constrangimento aos 11 anos. Era horrível”.

* Silvana contou que, quando entrava em um ônibus, evitava sentar na poltrona do corredor porque sempre algum homem se aproveitava da situação para esfregar as partes íntimas em seu braço e, às vezes, quase no seu rosto.

*Dalila lembrou que sofreu a mesma coisa toda a sua vida de estudante e que um dia, aos 11 anos, um deles não se intimidou nem com a presença do pai e da mãe que a acompanhavam dentro do ônibus. “O percurso inteiro aquele tarado desgraçado se esfregou em mim e eu ficava quietinha com medo e vergonha de denunciar”.

* Joina também disse que perdeu as contas de quantas vezes passou por isso na adolescência. Contou que, mesmo depois de adulta, houve um dia que um homem passou todo o trajeto dentro do ônibus empurrando o pênis em seu braço. Detalhe: ela carregava o filho de um ano. “É um psicopata  um homem que comete um abuso desse até com uma mãe com um filho no colo”.

*Vania relatou que indo para a escola cansou de presenciar homens se masturbando dentro de ônibus e ficava morta de medo e de vergonha.

*Patrícia lembrou que um dia, retornando do colégio, no final da tarde, um homem apertou tanto as partes íntimas na sua coxa, dentro do ônibus lotado, que este chegou a ejacular. “Eu cheguei em casa e vi que minha calça estava um pouco molhada. Fiquei assustada e recolhida em meu canto por vários dias com vergonha de comentar com alguém”. Patrícia só tinha 12 anos.

Depois que todas relataram suas experiências traumáticas, viro-me para o único homem do grupo que ouvia a conversa calado: “Pedro*, ainda bem que tu nasceste homem e nunca tiveste que passar por esse tipo de constrangimento e abuso”.

Para minha surpresa, a resposta dele foi quase um grito:

– E quem disse que não? Eu sofri o mesmo tipo de abuso, na minha infância e adolescência, igualzinho a vocês. Rapazes mais velhos também se aproveitavam de mim dentro dos ônibus. A mesma raiva, medo e vergonha que vocês sentiram eu também senti”, relatou Pedro.

Experiências idênticas. O mesmo trauma, a mesma vergonha e o mesmo medo de denunciar. Se todas as mulheres – tenham elas 20, 30, 40, 50 anos ou mais – tivessem a oportunidade de relatar situações de abuso sexual que vivenciaram na infância ou adolescência, daria um farto material de pesquisa.

Problema da sociedade moderna? Não. Até porque são experiências traumáticas vivenciadas há 10, 20, 30 anos ou mais. Então, desta vez, nada de culpar as novelas, as redes sociais, a permissividade do mundo moderno ou a ausência de leis mais severas.

Ejaculadores de mulheres em ônibus, que só agora tornam-se pauta na mídia, sempre estiveram lá.

E para cada dois ou três que são denunciados e presos, outros 10 ou 20 continuarão praticando diariamente os mesmos atos grotescos nos pescoços, nos braços, nos rostos e nas coxas das Patrícias, Joinas, Vanias, Dalilas, Silvanas e Andreias.

E sabem por que? Porque são frutos do machismo. A cultura do abuso sexual está presente de forma viva e perene na sociedade brasileira. E nós, silenciosa e passivamente, a aceitamos.

Existe frase mais machista e estimuladora do abuso sexual contra mulheres do que aquela cantilena idiota: “prendam suas cabritas que o meu bode está solto”.

E, ao ouvirmos, o que nós fazemos? Nada. Apenas damos sonoras gargalhadas, achando engraçado aquele pai abobalhado se vangloriar da macheza do filho ‘garanhão’.

Então, é hora de dar um basta e botar a boca no trombone. Os bodes podem até estarem soltos por aí, mas as cabritas precisam mostrar que têm garras e sabem denunciar.

*Todos os relatos são reais.  Apenas os nomes das mulheres são fictícios para preservar as fontes.   

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