Em Alcântara, dona de pousada transforma objetos recolhidos do lixo em obras de arte e encanta visitantes

Fotos e texto: Jacqueline Heluy//

Em suas ladeiras de pedras, ruínas e casarões, Alcântara transpira história, encanto e magia. A velha cidade do lado de lá da baía de São Marcos também transpira arte e inspira poesia. Mas, na Pousada da Zinha, localizada em uma área privilegiada, de onde se pode avistar São Luís, a arte se materializa de um jeito diferente. A matéria-prima vem do lixo.

As mandalas na cor dourada que ornamentam os móveis da pousada foram confeccionadas com pneus velhos

O processo de transformação é surpreendente. Pneus velhos viram exuberantes mandalas que ornamentam as paredes. Garrafas de vidro vazias se transformam em luminárias. Boias de navios transformam-se em pratos de decoração. O mesmo acontece com dezenas de lâmpadas sem uso e garrafas velhas de azeite, que após um grandioso trabalho artístico de reciclagem, hoje são vistosas luminárias à beira da piscina. Sem esquecer das centenas de canetas transparentes, transformadas em cortinas glamourosas.

O salão principal da pousada encanta os visitantes pela beleza da sua ornamentação simples e criativa

Quem chega à Pousada da Zinha, no primeiro momento acha que todos os objetos suntuosos, na cor dourada, que ornamentam a pequena e aconchegante hospedaria, são valiosas peças de arte de inspiração grega. Até que, diante do olhar contemplativo e curioso do hóspede, surge uma simpática senhora:

– Tudo isso foi feito por mim. Aqui o lixo vira arte”, diz ela sorrindo. É Conceição de Maria, carinhosamente chamada de Zinha.

Abajur de garrafas

Dona Zinha, proprietária da pousada, é uma artista talentosa, mística e muito espiritualizada. Ela acredita que, em vidas passadas, tenha sido uma cigana e diz receber dela a inspiração que precisa para reciclar os objetos encontrados no lixo e montar as suas peças de arte com tamanha perfeição.

A simpática senhora confecciona todas as peças sozinha e conta com o auxílio de pessoas da comunidade, que deixam na pousada objetos  sem uso que seriam descartados no lixo. “Eu sempre tive mania de recolher coisas velhas que encontro nas ruas para transformar em peças de arte”.

A dona da pousada transmite simplicidade e muita alegria. Cuida de cada detalhe da pousada que sempre recebe muitos turistas que visitam Alcântara. Nem a doença grave da qual está se tratando tira-lhe a alegria de viver e de continuar criando suas peças de arte com lixo reciclado.

INSPIRAÇÃO DA CIGANA

Panelas de barro e peças de bijuterias ornamentam o restaurante da piscina

Ela conta que, em um dos seus sonhos, se viu como cigana na idade medieval, sentada em uma mesa de madeira pendurada no teto por correntes de ferro. Resolveu fazer réplicas que hoje são usadas no restaurante principal de sua pousada.

Dona Zinha, de 63 anos, mora em Alcantara há 40 anos e diz não ter nenhuma vontade de deixar a cidade. Primeiro montou um estabelecimento em um casarão na praça do Pelourinho, onde permaneceu por 22 anos. Comprou o terreno onde hoje está montada a Pousada Bela Vista, ou da Zinha, e se mudou para lá, há 14 anos.

Cortina de canetas

Zinha nasceu no Rio de Janeiro, morou em Brasília e, aos 17 anos, aceitou o convite de um amigo para conhecer Alcântara, na década de 70. Ao chegar, foi amor à primeira vista pela cidade histórica. “Os ‘encantados’ daqui não me deixaram mais ir embora”, diz ela sorrindo.

Ela diz acreditar que Alcântara tem um encantamento e que a cidade é quem escolhe o visitante que ela quer que nela habite e não o visitante que escolhe a cidade. “Não adianta alguém chegar aqui e querer montar um negócio, porque se “eles” não permitirem, não vai dar certo. Vai ser um fracasso”.

– E quem são “eles”, dona Zinha?

– Eles são os negros e brancos, os antepassados… os verdadeiros donos de Alcântara. ‘Eles’ é que mandam”, responde.

Lâmpadas velhas viraram luminárias que ornamentam o hall da pousada

Na concepção de dona Zinha, Alcântara ganhou a fama de “parada no tempo” porque essa é vontade dos antepassados que regem os destinos da cidade.

Como bem definiu Zinha, se depender ‘deles’, Alcântara será sempre assim: cinzenta, mística e calma. Tão calma a ponto de, em determinados momentos do dia ou da noite, o único barulho que se pode ouvir na cidade é o sopro do vento. E é justamente este encantamento que a deixa tão linda.

Então, se Alcântara é assim, que assim seja … eternamente!

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