E AS CASUARINAS TAMBÉM MORRERAM!

A velha casuarina resiste bravamente ao tempo, tentando preservar a memória histórica do Cemitério do Gavião/Foto Jacqueline Heluy

Jacqueline Heluy   –  

Eu gosto de visitar cemitérios!

Uma revelação meio fantasmagórica para uma noite de domingo, mas sempre gostei da contemplar o conjunto de mausoléus e visitar túmulos de pessoas importantes.

Quando visito cemitério em um dia qualquer – não necessariamente em datas simbólicas ou sepultamentos – gosto de passear entre as catacumbas e ler as inscrições nas lápides. As mensagens que, supostamente, o morto deixa aos seus entes queridos, são emblemáticas. Também observo a data em que o sepultado nasceu e morreu.

Cemitério me transmite sensação de paz e a percepção exata da finitude da vida. É como bem definiu Vinícius de Moraes em seu poema “Cemitério na Madrugada”:  “lá tudo é sereno… Lá toda a tristeza se cobre de linho. Lá tudo é manso, manso como um corpo morto de mãe prematura. Lá brincam os serafins e as flores, bimbalham os sinos. Em melodias tão alvas que nem se ouvem”.

Desde menina, tenho fascinação pelo Cemitério do Gavião. É lindo.  Inaugurado em 1855, no bairro Madre-Deus, Centro Histórico de São Luís, é uma verdadeira relíquia. Nele, estão guardados os restos mortais de grande parte das personalidades importantes  do nosso estado, a exemplo do ex-governador Benedito Leite, Bandeira Tribuzi, Sousândrade,  Maria Aragão, Nauro Machado, Coxinho, Joãozinho Trinta e tantos outros.

Já fazia algum tempo que não visitava o Gavião. Ontem à tarde, bateu aquela vontade de passear por lá.  Estacionei o carro na porta do cemitério, pertinho da hora do Angelus, exatamente às 17h40. Quando já chegava ao portão, passa um motoqueiro lentamente, e me diz em tom de brincadeira: “cuidado”. Não liguei e segui adiante.

Já na entrada principal, percebo que o cemitério sofreu modificações. Olhei para os dois pilares e não encontrei as frases que, desde criança, chamavam a minha atenção sempre que visitava o Gavião em Dia de Finados.

A antiga inscrição esculpida em pedra no pilar à direita da entrada do cemitério foi removida e o local coberto com tinta/ Foto de arquivo

“Nós, os ossos que aqui estamos, pelos vossos esperamos”. Esta era a frase que existia no pilar à direita de quem entra. “Nós somos o que tu foste, tu serás o que nós somos”, inscrição do pilar à esquerda. Lembrei que todas as vezes que eu visitava o cemitério, parava para ler essas frases, tentando entender o significado. Corri os olhos pelos pilares, mas as frases não estão mais lá.

Ambas as inscrições históricas dos pilares do cemitério, assinadas pelo então administrador Leoncio Rodrigues, foram arrancadas e sobre elas passaram uma tinta amarela. Que falta de sensibilidade de quem determinou isso!

E não é só. O arco metálico na entrada também mudou. Lembro que, quando menina, também dedicava alguns minutos contemplando a cabeça de caveira esculpida em ferro sobre dois ossos no alto do arco. A cabeça também foi retirada.

Caveira que ficava sobre o arco de ferro e integrava o patrimônio arquitetônico do cemitério também foi removida/Imagem de arquivo

Fico me perguntando, para que alterar os símbolos do cemitério histórico de nossa cidade? .

E continuei entrando, decidida a continuar o meu passeio. Parei e congelei o coração de tristeza. Onde estão as casuarinas do Cemitério do Gavião?

A primeira vez que ouvi essa palavra foi quando li um artigo de José Sarney, em setembro de 1977, no O Estado do Maranhão, intitulado  “Por quem choram as casuarinas?”  Era uma homenagem ao poeta Bandeira Tribuzi, que acabara de falecer. Curiosa, perguntei à minha mãe o que eram casuarinas e ela me respondeu: “são as árvores do Cemitério do Gavião”.

Na próxima sexta-feira, 8 de setembro, serão celebrados os 40 anos da morte de Bandeira Tribuzi e nunca me esqueci dessa palavra. Sempre que eu visitava o Cemitério do Gavião contemplava as casuarinas. Como eram lindas aquelas árvores.

A única casuarina que ainda resiste bravamente no Cemitério do Gavião/Foto Jacqueline Heluy

Hoje, as casuarinas não estão mais lá. Apenas uma no canto direito do muro do cemitério, resistindo ao tempo e chorando não apenas pelos mortos que ali estão, quanto pela própria memória do nosso histórico Cemitério do Gavião, que vem sendo vilipendiada devido à falta de cuidado e atenção por parte daqueles que têm a obrigação de resguardá-la.

Saí do cemitério triste por não encontrar mais os símbolos que tanto marcaram a minha infância. Do lado de fora, quando já ia entrando no carro, dois homens começam a brigar a poucos metros de mim. Um com uma faca, o outro com um pedaço de pau. Fui embora assustada.

Neste momento, lembrei-me do alerta que me fez o motoqueiro, quando eu ia entrando. “Cuidado”. Mas o perigo está do lado de cá dos muros do cemitério. Lá dentro, só há paz.

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