Cobrança excessiva nas escolas como fator de adoecimento emocional entre crianças e adolescentes

Por: Jacqueline Heluy, Thais Oliveira, Renato Sousa, Ana Beatriz Ribeiro, Denilra Mendes e Ana Beatriz Silva – Alunos de Psicologia da UNDB // – 

 

Antes conhecida como uma fase divertida e sem muitos compromissos, a infância tem se tornado uma etapa repleta de obrigações e atividades. A agenda de diversas crianças é mais cheia do que a de muitos adultos. Pais e escolas impõem uma carga excessiva sobre crianças e adolescentes para que tenham um desempenho escolar impecável e já se preparem para o futuro. Mas, os adultos não percebem que tanta pressão pode prejudicar e causar sérios problemas de aprendizado e desenvolvimento nas crianças e adolescentes.

Outro fato que vem sendo observado pelos psicopedagogos e psicólogos é que as escolas da contemporaneidade possuem a cultura de valorizar o bom desempenho dos alunos e deixam de lado o fracasso e os sentimentos desagradáveis acarretados por ele, como tristeza, medo ou frustração. Nesse sentido, sintomas como depressão, automutilação, ansiedade e suicídio tornaram-se recorrentes entre os adolescentes e jovens.

Frederico Cesarino, professor, mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Amazonas e doutor em Sociedade e Cultura pela mesma universidade, alerta que a criança, apesar de grande resiliência, tem um limite para a pressão psicológica e excessos de cobrança podem gerar um efeito contrário, em vez de estudar e se esforçar cada vez mais, acaba desinteressada e triste com tanta pressão.

“Essa pressão, além de provocar em muitas crianças manifestações físicas (como vômitos, dor de estômago e dor de cabeça) e psíquicas (ansiedade, medos, agressividade e baixa autoestima), revela um grave problema da sociedade atual: valorizar resultados e não o processo, o ter em lugar do ser. Na verdade, algumas escolas e pais acabam por exigir das crianças a nota alta ao invés de estarem preocupados com o processo de aquisição de um conhecimento que realmente crie condições de uma maior compreensão do meio, de sua realidade, de sua cultura”, destaca o sociólogo.

Sobre o ambiente escolar na atualidade, afeito às cobranças excessivas e à pouca valorização dos pontos positivos dos alunos, as autoras Mara Cristiane von Mühlen e Sheila Gonçalves Câmara alertam para os casos de Autolesão Não Suicida (ALNS) entre adolescentes como uma das reações ao excesso de cobrança sofrido tanto no ambiente escolar quanto no seio familiar.

As autoras classificam a ALNS como uma “ação sem intenção consciente de suicídio, mas que pode gerar ferimentos graves”. Segundo elas, este comportamento está relacionado a mecanismos de enfrentamento de emoções, utilizado para diminuição de tensão ou alívio do sofrimento e, geralmente, está ligado a relacionamentos interpessoais negativos.

Para além do impacto na saúde e desenvolvimento dos indivíduos, a ALNS entre adolescentes é considerada como um problema de saúde pública, pois afeta diretamente as relações do indivíduo e as pessoas da rede de convívio do adolescente, em especial, sua família.

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), no Brasil foram registrados 30.075 casos de ALNS em meninas e 11.789 casos em meninos, entre 2011 e 2016. No mundo, a revisão de literatura mostrou que os índices estão entre 17 a 60% dos adolescentes.

O papel do Psicólogo Escolar na construção do aprendizado

Diante do contexto atual, a Psicologia Escolar passou a ter um papel importante para que tais adoecimentos possam ser prevenidos no espaço escolar. Para tanto, o profissional deve estar apto para estruturar, implantar e transformar saberes. Sendo assim, o psicólogo escolar é um agente imprescindível para a construção e incorporações de valores no espaço escolar. “A intervenção do psicólogo em instituições de ensino deve ocorrer de maneira preventiva; desta forma, o profissional precisa estar apto para intervir em situações suscetíveis ao acarretamento de problemas maiores. O psicólogo escolar deve prestar atendimento para alunos, pais, professores e demais funcionários. Sua função é promover o bem-estar social”, Santos,  2010.

Este profissional busca, ainda, interagir junto ao educando e desenvolver ações educativas que promovam a saúde mental para todos do espaço escolar. Dentre suas funções pontua-se: avaliar problemas de aprendizagem, problemas de adaptação escolar e integração da família, escola e sociedade. O psicólogo escolar desenvolve também trabalhos com outros profissionais, podendo intervir nos planejamentos e práticas educacionais, participando de atividades como a elaboração e a análise do Projeto Político Pedagógico da Escola (Santos; et. al., 2009).

De acordo com Andrada (2005a), são várias as possibilidades de intervenção que um psicólogo pode desempenhar no campo escolar, dentre essas pode-se citar: entrevistas com os pais dos alunos, levantando dados sobre a autonomia x dependência; limites; autoritarismo; relacionamento cognitivo e emocional na família; reflexão com os pais sobre as dificuldades de aprendizagem existentes e criando junto a esses processos que possibilitem o sucesso escolar do aluno; unir pais e professores no processo de educação das crianças e, além disso, o psicólogo escolar deve ser curioso, articular junto ao demais profissionais em busca de estratégias de intervenção.

O psicólogo escolar ao identificar problemas, queixas ou situações adversas deve antes de intervir buscar as múltiplas causalidades. Pois, o ambiente escolar funciona de forma sistêmica, isto é, de forma circular onde um determinado problema pode abranger todo o subsistema e as pessoas que fazem parte.

Ainda sobre os atributos desse profissional Andrada (2005b) pontua que é preciso que o mesmo crie um espaço para escutar as demandas e saiba pensar maneiras diversas para lidar com situações do cotidiano.

O psicólogo escolar deve ainda ouvir alunos, pais e demais funcionários e considerar o que estes pensam sobre a escola da qual fazem parte. É imprescindível também estabelecer um bom diálogo com os professores, escutá-los, acolhê-los e incentivá-los a participarem ativamente da construção de um espaço escolar de qualidade e saudável a todos que compõem o sistema.

Desta maneira, sabe-se que ainda existem diversos desafios a serem vencidos por esse profissional, já que o psicólogo escolar é um agente de mudanças dentro da instituição, assumindo a posição de elemento catalisador de reflexões e de agente de conscientização dos papéis, sendo representante de diversos grupos que compõem a instituição-escola.

Escolas não podem ser opressivas

O pedagogo Aloysio Costa, destaca que para garantir o bom desempenho escolar dos alunos, as escolas precisam cobrar, mas sem pressionar. “Valorize os estudos da criança, diga que ela vai conseguir e que tem capacidade. Se houver algum insucesso, identifique o problema para encontrarem uma solução juntos. O aluno precisa perceber que tem o apoio da família e o fato de estarem juntos muda até a postura do estudante”, afirma.

Além disso, ele explica que os pais precisam entender os insucessos escolares da criança. “Muitos pais se frustram quando veem que seu filho tirou uma nota baixa ou está com dificuldade em algum conteúdo. Por isso, é importante fazer com que o filho não tenha receio de se comunicar com eles a respeito de algum fracasso escolar. Muitas crianças temem a reação do pai ou da mãe e acabam por esconder seus fracassos. Sem ter uma pessoa de confiança para compartilhar e pedir ajuda, entram em depressão ou paranoia e isto acaba por prejudicar mais ainda. A criança que obter fracasso em uma situação escolar e puder contar com a confiança e auxílio dos pais, certamente superará todos seus problemas de uma forma bastante objetiva”, explica o pedagogo.

Aloysio Costa alerta que a escola também deve cobrar um bom desempenho dos alunos sem ser opressiva e nem exigir mais do que deveria de uma criança. “O colégio não deve se preocupar apenas com o ensino e o aprendizado. O professor deve ter o papel social de verificar se algum de seus alunos não está bem, se está com algum problema dentro ou fora da escola e precisa saber pelo menos o básico sobre cada criança que está sob sua responsabilidade. A escola deve ter um diálogo aberto com os pais e explicar que o mundo é feito de vitórias e fracassos eventuais”.

Portanto, a escola comprometida com a formação de suas crianças não se preocupa apenas em cobrar bom desempenho, porque constrói o conhecimento em suas atividades diárias. O desempenho escolar passa a ser o resultado natural de um trabalho de motivação e envolvimento das crianças na construção do conhecimento.

 

Referências

https://bbel.com.br/arquivo/post/cobranca-exagerada-de-desempenho-escolar-prejudica-aprendizado-das-criancas

: https://doi.org/10.1590/1413-82712016210217

Autolesão não suicida entre adolescentes: uma revisão Narrativa https://seer.imed.edu.br/index.php/revistapsico/article/view/3066111111100

: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-71281998000100015

https://institutoneurosaber.com.br/a-importancia-de-elogiar-as-criancas/

 

 

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