“Sofri abuso sexual, ameaça de morte e humilhações; lutei, me libertei e construí a minha própria história”

Jacqueline Heluy*//

É preciso escrever. Não por sensacionalismo, mas para que todos que a conhecem ou com ela convivem no ambiente de trabalho passem a respeitá-la e admirá-la, se não por seu talento ou carisma, por toda sua luta e história de vida. Vida marcada por sofrimento e, ao mesmo tempo, muita coragem, fé e determinação.

O relato surgiu por acaso. Final da manhã na redação, nós duas sentadas frente a frente, conversando e dando gargalhadas. De repente, parei e falei:

– Marina, me conta a tua história”.

E ela, de imediato, começou a relatar.

E que história!

Em alguns momentos o relato que eu ouvia suprimia-me o ar, tamanha a emoção. As palavras brotavam com rapidez, no mesmo compasso das lágrimas. Depois que ela acabou, fiz um esforço danado para destravar o nó que apertava a minha garganta e perguntei:

– Posso escrever e publicar?”

– Pode. Nunca antes havia contado minha história para ninguém, mas este foi o momento”, disse-me ela.

Incompreendida por alguns e, ao mesmo tempo, admirada por muitos, a jornalista Osmarina Souza (Marina Souza) é uma daquelas pessoas que conceituo como predestinadas. Isso porque, diante dos inúmeros problemas que enfrentou, é quase impossível acreditar que ainda esteja viva e tenha chegado aonde chegou.

Marina teve infância normal, em Itapecuru, até os quatro anos de idade, quando aconteceu um problema com o pai que trabalhava no sistema de segurança pública do Estado. O casal se separou. O pai foi morar em outro município e logo constituiu outra família. Ela e o irmão ficaram com a mãe.

Sem condições financeiras para o sustento da família, a mãe saía para trabalhar e deixava Marina e o irmão sozinhos em casa. Ela com 5 e o irmão com 3 anos. “Às vezes o namorado da minha mãe se oferecia para ficar tomando conta da gente”. Neste momento, percebo que o semblante dela se transforma e, então, pergunto:

– E o que ele fazia com vocês, Marina?”

De imediato, ela respondeu:

– Eu fui abusada pelo namorado da minha mãe dos cinco aos sete anos de idade. Ele fazia brincadeiras eróticas, bolinava comigo. Ninguém sabia. Eu não podia contar, sentia vergonha, medo…”

E prosseguiu o relato: “E não foi só ele. O irmão da minha mãe sabia que o namorado dela fazia aquelas coisas comigo e não fazia nada para impedir. Este meu tio também abusava de mim. Eles seguravam o pênis e diziam “vem, pega aqui esse brinquedo”.

Neste momento, o tom da voz de Marina era de profunda tristeza. Pensei que essa seria a parte mais dramática de sua história, mas o pior eu ainda estava por ouvir.

Perguntei:

– Eles chegaram a te violentar, consumar o ato sexual?”

Marina respondeu:

– Não, só me bolinavam com os dedos. Mas eu fui ‘currada’ (estupro coletivo), nessa mesma época, pelos meninos que moravam perto da minha casa. Era um grupo de uns cinco meninos, de 13 a 15 anos. Eles me atraíram para uma casa onde não morava ninguém, me trancaram em um quarto e fizeram o diabo comigo. Não sei como não morri. Um dia tentaram até me afogar no rio. Também me ameaçaram e disseram que se eu contasse para alguém me matariam. Mas Deus me manteve viva”.

A mãe só soube dos abusos sofridos pela filha pouco antes de falecer, há cerca de quatro anos, e pediu perdão de joelhos. Marina perdoou. E também concedeu perdão ao tio em seu leito de morte, há oito meses.

Enquanto conversávamos, Deus se fez presente em todo o relato de Marina. Ela atribui a Ele tudo que aconteceu de bom em sua vida, inclusive a libertação dos dois anos de abuso sexual em Itapecuru. E ela conta que isso aconteceu por acaso, no dia em que o pai mandou buscar o irmão para morar com ele no município de Anapurus.

– Meu pai disse que queria fazer do meu irmão um doutor, colocar ele pra estudar. Mas meu irmão se recusou a ir e se escondeu. Eu sei que meu pai não me escolheu para morar com ele, mas, mesmo assim me ofereci e fui”.

Ao pai, Marina só tem palavras de agradecimento. “Se eu sou o que sou hoje, devo ao meu pai. Ele não me deu o carinho que eu precisava, mas me deu educação, me deu muitos livros”.

Marina morou com o pai dos 7 até os 14 anos. Recebeu educação exemplar. Estudiosa, era chamada para declamar em praça pública em eventos cívicos do Dia da Independência, recitando ensaios e versos que enalteciam e fortaleciam o regime militar. Queria ser cantora e ficou em 2º lugar em um concurso regional de calouros do Mobralteca, um programa do governo federal. Cantou a música Paralelas, da cantora Vanusa.

Na casa do pai a relação com a madrasta não era das melhores. Mais humilhações. Não deu para permanecer e Marina voltou para Itapecuru, aos 14 anos, onde passou a receber ajuda financeira dos familiares da mãe, que começaram a exigir que ela encontrasse um noivo para casar e se tornar dona de casa. Mas Marina estava determinada a estudar, se formar e trabalhar.

Vestiu-se de coragem e saiu de Itapecuru, aos 16 anos, para São Luís, com a desculpa de fazer consulta com oftalmologista. Nunca mais voltou. Conseguiu o primeiro trabalho como doméstica em uma casa no João Paulo.

O salário que recebia dava apenas para pagar os estudos no colégio Padre Rogério Dubois, no Centro de São Luís. Vestia-se com roupas que lhe eram doadas.

Quando doméstica, Marina era tratada com humilhações e desrespeito. Só comia depois que todos da casa já haviam comido, isso se sobrasse algum resto. Não podia circular por onde quisesse, pois os espaços destinados às domésticas eram restritos.

Marina conta que nas situações de extrema humilhação nada respondia, mas quebrava o silêncio interior dizendo a si mesma: “eu vou sair dessa vida de doméstica e um dia serei tratada como gente”. E quanto maior era a humilhação, maior sua dedicação aos estudos.

Muito cedo aprendeu a se desviar das investidas masculinas. E foram muitas. Conta que quando retornava da escola, à noite, sofria assédio de homens que paravam os carros para lhe oferecer carona. Quando o carro encostava, ela se fingia de doida, fazia caretas e se comportava como se tivesse algum tipo de doença mental.

– Descobri que, às vezes, nós, mulheres, precisamos nos fazer de doidas para escapar das maldades”, disse sorrindo.

E foi assim, com coragem e sabedoria, que Marina conseguiu vencer as armadilhas da estrada da vida e foi conquistando cada degrau da sua existência. Com muita determinação e esforço passou no vestibular para Letras na UFMA, depois Jornalismo no Ceuma. Deixou de ser empregada doméstica e foi trabalhar de serviços gerais. Bateu nas portas do antigo Jornal de Hoje, onde pleiteou e conquistou a vaga de recepcionista. Daí para as rádios foi um pulo.

Reconhecida como um dos grandes talentos do rádio maranhense, Marina agradece a Deus por ter lhe dado o dom para comunicação e uma voz maravilhosa que abriu as portas do mercado. E também acredita que tem uma missão neste plano. “Só ainda não sei qual é”.

Fim da conversa volto a perguntar se posso mesmo publicar a sua história. Ela responde:

– Pode sim. Não tenho vergonha. Quero que todos conheçam a minha vida e os caminhos que percorri para chegar até aqui. Quero servir de exemplo de resistência, porque sei que neste nosso país há milhares de mulheres – crianças e adolescentes – vítimas de todo tipo de humilhações e violência, passando por tudo o que já passei”.

Se, antes de conhecer toda a densidade dessa história, eu já gostava de Marina por sua sensibilidade, hoje eu a admiro muito mais. E sei que muitos que estão lendo, agora, esse relato, passarão a vê-la de outra forma. E o melhor de tudo é que ela conseguiu perdoar a todos os seus algozes. Coisa que só os que têm as mãos limpas e o coração puro conseguem.

– Quem é você, Marina?, perguntei. Ela respondeu: “sou uma mistura química, mas quem define a minha essência é Deus”.

E essa conversa foi suficiente para eu entender o exato significado da frase de Guimarães Rosa: “O que a vida quer da gente é coragem”. E isso Marina Sousa tem de sobra.

  *Post publicado em dezembro de 2016 no Facebook da autora

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