São Raimundo Nonato dos Mulundus: a história do santo milagreiro que arrasta multidão de devotos em Vargem Grande

O andor do santo é levado por uma multidão de devotos pelas ruas de Vargem Grande

Jacqueline Heluy/Fotos Márcio Diniz  –  

Se a fé move montanhas, para os fervorosos devotos de São Raimundo Nonato dos Mulundus, a força milagrosa do padroeiro dos vaqueiros e lavradores do Maranhão tem o poder de restabelecer a saúde dos enfermos e conceder graças aos necessitados.

E foi esta fé inabalável que levou milhares de romeiros do Maranhão e de outros estados do Nordeste a percorrerem a pé, nesta sexta-feira, mais de sete quilômetros da BR-222,  entre a igreja do povoado Paulica, até a igreja de São Sebastião, no município de Vargem Grande, a 172 Km de São Luís.

Rostos queimados de sol, calor, sede e muito cansaço.  Muitos caminharam descalços no asfalto quente da rodovia para pagar ao santo a graça alcançada. Maria Silvana acompanhou o andor levado pela multidão, equilibrando um prato com seis velas acesas na cabeça. Ela quitou com o santo a promessa feita por sua mãe quando ainda era criança e foi acometida por uma doença grave.

Nani Maria Lurdes seguiu por todo o caminho com uma pedra de médio porte sobre a cabeça. O sacrifício foi a forma de agradecer ao santo por tê-la livrado das dores e infecções causados por pedras nos rins.

Centenas de romeiros, cada um com sua história de vida e com o coração repleto de agradecimento e devoção ao santo pela graça recebida.

A ORIGEM DO SANTO

Muitos moradores de Vargem Grande não sabem exatamente como teve início a devoção a São Raimundo Nonato dos Mulundus. A história é um tanto controversa. Tudo teria começado após a morte do vaqueiro Raimundo Nonato Soares Cangaçu, que nunca teve a sua santidade reconhecida pela Igreja Católica.

Contam os historiadores que, em 1886, Raimundo Nonato caçava uma rês desgarrada junto com outros vaqueiros e sumiu. Dois dias depois, foi encontrado morto no povoado Mulundus, em Vargem Grande. O corpo estava conservado e exalava perfume.

Os moradores do povoado entenderam que ele teria virado um santo. Não houve enterro. Dias depois o corpo sumiu e se tornou um mistério.

Historiadores relatam que padres da região teriam levaram o corpo do vaqueiro para Roma. Começaram a surgir as histórias de milagres atribuídos a Raimundo Nonato.

No local em que o corpo de Raimundo foi encontrado, foi erguida uma capela de palha, depois transformada no santuário de São Raimundo dos Mulundus, hoje está em ruínas.

Até 1908, os padres celebravam missa no santuário de Mulundus. Em 1930, o arcebispo de São Luís teria proibido o festejo, alegando ser profano. O povo manteve a devoção, sem padre e sem missa.

Em 1954, o arcebispo dom José Delgado teria mudado o santuário de Mulundus para Vargem Grande, dando o nome de Santuário de São Raimundo Nonato, só que o homenageado não era o vaqueiro, mas sim um santo espanhol, cuja imagem foi trazida da Espanha pela proprietária das terras na qual o santuário foi erguido.

O resultado de todo essa conturbada história é que a comunidade de Vargem Grande tem devoção ao vaqueiro Raimundo Nonato, mas a imagem que é levada na romaria durante o festejo é a do outro São Raimundo Nonato, o santo espanhol.

A singela imagem do vaqueiro Raimundo Nonato, um negro com chapéu de couro e manta vermelha, está guardada na capela do povoado Paulica. Já a imagem do São Raimundo espanhol está muito bem protegida em andor de  vidro com barras douradas, no altar da Igreja de São Sebastião, localizada na sede do município de Vargem Grande.

Se a história é verídica ou não, a certeza é que a devoção a São Raimundo Nonato dos Mulundus, o vaqueiro, existe e é muito forte. Já atravessou as fronteiras do Maranhão e transformou a romaria de Vargem Grande em uma das festas religiosas mais prestigiadas do Nordeste.

O santo é tão poderoso que consegue reunir vaqueiros, lavradores, políticos, fazendeiros, empresários, gente do povo. A devoção a São Raimundo Nonato dos Mulundus não segrega, pelo contrário. Todos caminham, juntos em procissão na BR-222, unidos pela fé, ainda que esta união dure apenas o período do festejo.

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